Eu sou.
Eu sou as mãos necrosadas de Jack
As mãos purulentas deixando vestigios de DNA pegajoso no estofado branco, na tarde de domingo mais quente que tivemos em vinte anos.
Eu passeio por dentro da carne morta do machucado de Jack.
Eu sou o parasita que mora no intestino de Jack.
Causando todas as piores dores abdominais que ele sempre sente ao levantar pela manhã.
Eu faço ele defecar sangue e sentir mais um pedaço do seu corpo exteriorizado.
Eu sou o frio na espinha de Jack.
Aquele frio de ódio de estar em vários lugares. A onipresença do que não existe dentro de cada um de nós.
Eu sou o olho vazando de Jack e sou também os vermes que habitam seu pé.
E percorro cada parte do corpo de Jack como uma metastase. Meu intuito é virar uma parte do Jack.
Eu sou a micose da virilha dele. Eu sou a herpes em seu pênis.
Pronto para me espalhar em toda sua estrutura. Eu sou o cancêr que ele ainda não desenvolveu.
O Jack.
Ele me pertence. Ele é minha casa e a minha comida. Ele é tudo de podre que tem em mim.
E ele me entende. ELE ME ENTENDE.
Ele é o único que conversa comigo quando eu estou só.
Ele é só a personificação da dor da alma na carne.
Eu sou o Jack. O Jack sou eu.
Eu sou a fratura craniana dele.
Ele passa a mão necrosada no cerebro exposto. Ele não sente. Eu sinto.
A mão purulenta deixando secreção amarelada fétida por toda a extensão da cabeça. O osso aberto, triturado, amassado.
Eu sou a ferida que não cicatriza. O corte no céu da boca que fecharia se ele parasse de passar a língua. Eu sou o gosto de sangue que causa arrepios no Jack.
Um dia eu matarei Jack. Ele sabe.
Porque se eu sei, ele com certeza sabe.
Porque eu sou o Jack. O Jack sou eu.
Acordei no meio da noite, não sabia unde estava. Aos poucos a consciencia foi voltando.
Eu tive um sonho ruim, mas agora eu não me recordava sobre o que era, caminhei até a cozinha para tomar um copo d’agua. Foi simples, desceu facil, porém não houve métodos de voltar a dormir.
Isso já vem acontecendo a varias noites. Fico até o clarear do dia mirando o guarda-roupas em frente a cama e o grande espelho junto a porta do quarto.
Me levantei. Coloquei a mesma roupa de sempre, mas hoje eu não ia trabalhar.
Peguei as caixas que estavam na sala, coloquei no carro. Abri a garagem e sai.
Cheguei no apartamento dele, subi as escadas com as caixas, toquei a campainha. Uma mulher recepcionou, ela tinha uma criança nos braços. Chamou-o, ele veio. Pegou as caixas, fechou a porta e acabou.
Eram seus últimos pertences na minha casa, e não sei porquê, na época eu que não o deixei levar.
Hoje, quase um ano após a nossa separação eu resolvi que não quero lembrar.
E não queria. Não era só dele. Era tudo.
Desci as escadas. Entrei no carro. Fui para minha casa, lá, me livrei de tudo que lembrava pessoas. Fotografias, pertences, presentes, pelucias, lençóis, perfumes, jóias, almofadas. Até me desfiz do conjunto de sofás. Enfim.
Eu estava só.
Agora eu deveria recomeçar a colecionar lembranças do zero, como se eu não tivesse ninguém junto a mim nesses últimos 20 anos.
Deitei na cama, esperando uma noite de sono descente. Adormeci em meio ao vazio emocional na qual eu pairava agora.
Acordei descoberta, com a janela aberta e uma corrente de ar horrível entrando por entre ela. Levantei-me, olhei no relógio, eu havia dormido a pouquissimo tempo. Fechei a janela.
Me prostrei na cama olhando para mim mesma no espelho.
Entrei no meu olhar e vi minha existência vazia, vazia, vazia.
Então ergui-me novamente de subito, com a mão no peito como se fosse infartar, uma dor convulsiva na alma. Não respirava, não podia me sentir só, não queria me sentir só.
Sai andando pela casa como uma lunática atras de algo que pudesse acalentar meu coração, dar o calor de saudade que fizesse eu me sentir menos única.
Abri os guarda-roupas, revirei todas as gavetas, e la no fundo, esquecida, uma camiseta.
Dele.
Dormi com ela nos braços, sonhei com ele, me senti aquecida por aquilo. Talvez ele tambem estivesse pensando em mim.
Porque não.
Hoje eu entendo que eu posso ser única na vida de alguém, e eu quero transformar as pessoas em únicas pra mim.
Amanhã, talvez eu recupere algumas lembranças.
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Para comemorar, um copo de vinho
Celebrando todos os nossos equívocos
Dia após dia.
Brinde comigo novamente, naquele mesmo lugar.
Brinde a miséria de sermos nós
De sermos tristes.
Vamos comemorar toda a nossa podridão vertendo.
Entre os lençóis que sujamos.
Em quais lugares estaremos seguros de nós?
No principio Deus criou a dor
A dor e a tristeza.
Depois criou um modo de senti-la
E assim tornou-se poético o suficiente
O suficiente para criar todo o resto do mundo.
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Fraco.
O pesar de ser fraco agora abate suas juntas frias.
Você acha estar imune a paixão.
Você acha.
Mas você precisa dela, você vive dela a cada momento, você respira, você bombeia ela nas veias.
Você aparenta ser o intocável. O homem do pedestal de cristal cujo nenhum humano tenha o poder para fazê-lo desviar seu gélido olhar.
Você aparenta.
Mas quando esta sozinho, leva suas mãos vazias e sem vida ao rosto e chora de incerteza.
A felicidade é algo que passa, você não quer provar dela. Ela é o banho de chuva que você nunca tomou.
O sorriso é seu ato particular de hipocrisia consigo. Não, pela primeira vez, você não está tão só.
As palavras são sua única defesa.
Defesa do mundo que te desafia, te prega peças e tenta te dominar.
O mundo quer te engolir com ele, mas você ainda quer prevalecer, mesmo que seja o único.
De repente um pensamento foge e sai como um grito da alma por entre os dentes serrados e a boca seca e atinge os ouvidos errados.
Não há nada mais que se possa fazer a não ser calar.
Você silenciou a voz do mundo.
Eu era puro e a pureza trouxe aos meus olhos a tristeza de não viver.
O que era cinza em mim, nunca teria cor, assim os dias se passavam. Sem felicidade, dem dor, sem nada. Inertes, como minha vida.
Até que uma certa criatura banhada de raios de luz me levou para o mundo dela, e lá eu aprendi a cantar no tom dos pássaros e apreciar as estrelas. Ela me ensinou a andar pelo meio-fio sem ter medo e me guiou para uma imensidão desconhecida dentro de mim.
Logo a beleza tomou forma em meus olhos e eu pude enfim ver as cores, e sentir como elas me fizeram falta. Nada foi do mesmo jeito depois que ela entrou na minha vida, o sentido veio até mim como um pai zelando pelo seu filho, pegou nas minhas mãos e me levou para conhecer o que eu vivia.
Eu esperava todos os dias que o sorriso dela me fizesse mais feliz, que o seu toque me transportasse desse mundo de sombras em que estou.
Desejei estreita-la em meus braços, sentir o cheiro da sua pele, sentir o gosto do seu corpo. Como eu quis dizer tudo o que me afligia e não fugir do que eu sentia. Mas era impossível pra mim. Tudo era impossível.
Me vi imobilizado por aquilo. Era algo que eu nunca havia vivenciado, uma sensação de vazio tão grande quando eu não escutava a voz dela que eu me sentia surdo. Sentia-me aquecido por aquele sentimento, mas ao mesmo tempo aprisionado aos desejos dela.
Impotente e sem controle do que agora me tornei.
Sentei-me dentro de mim para refletir e constatei a pior coisa que poderia me acontecer: eu estava apaixonado.
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Ao levantar pela manhã sente-se mal, senta de novo na borda da cama e respira profundamente.
Mais um dia de agonia, naquela cidade quente.
Vai até a cozinha pisando no chão gelado, que agora trazia a ele a melhor sensação do mundo.
Sentia seus pés formigarem com o choque da temperatura do seu corpo com o tempo. Toma uma xícara de chá morno e come bolachas de agua e sal.
Caminha até o guarda-roupas, abre, olha, estuda que roupa seria mais confortavel para enfrentar o inferno que estava lá fora, na rua. Mas ele não tem escolha. É terno e ponto.
Pragueja a sua profissão, pragueja o forum e o juiz. Veste-se, sai.
Descendo a escada do prédio, são dois andares, ele vai chegar suado no trabalho. Passa pelo porteiro, pega sua correspondencia e vai até a calçada. Atravessa a rua em passos rapidos, coloca a chave na porta do carro. Entra.
No automóvei imóvel ele tenta relaxar, tira o paletó, joga no banco de trás, coloca um disco do Legião Urbana pra tocar. Liga o ar condicionado, abre o vidro.
Pronto. Ele liga o carro enfim. Antes de partir, ele olha o céu. Não é azul, é cinza. Ele olha as pessoas. Não tem ninguém na rua.
Segue sem reparar ao redor. Passa por um, dois, três semáforos, esquerda, segue reto, esquerda novamente. Avenida, trânsito. A música pula no toca-cds, ele se irrita. Olha o relógio. É tarde.
Olha o céu, é cinza.
Olha o carro, é preto. E o paletó, é preto.
Os outros ao redor o deixa constrangido.
Então ele, como se falasse com sua própria consciência profere:
“E a vida? Cadê?”
As buzinas, o céu, o carro, o paletó, o calor, o trabalho, o chá, a tontura. Nada parece ser bom o bastante pra ele.
Ele abre a porta em meio ao engarrafamento, sobe no capô. Sobe no teto. Olha para o céu, olha para a fila de carros multicolores e grita com as mãos para cima como se sentisse dores horriveis:
“E a vida? Cadê?”
Ele corre pela rua desesperadamente como se fosse perseguido, mas na verdade ele só tinha esquecido a chave na casa da Juliana. Parou um pouco perto de uma árvore, ja estava quase chegando. A aflição vinha e ia de seus olhos.
Não estava bem, ele suava, não de calor, de nervoso.
Suas mãos eram frias e sua boca foi começando a empalidecer.
Pensou que assim que chegasse na casa de Juliana, apanharia suas chaves e esperaria até a sensação ruim passasse, voltou a correr.
Convulso, a força já não ia as pernas e um quarteirão antes do destino, desfalesceu em meio a rua e fora atingido por um automóvel. Jogado longe, ensanguentado e provavelmente já sem vida.
As pessoas se aglomeravam em volta da poça avermelhada, um falatório em massa, um grito. Juliana vinha, chorando.
Sentou no chão, juntou com as mãos o que restava dele. Sussurrou algumas lamurias e se afogou no sangue do peito do rapaz, perplexa com o que tinha acontecido.
A garota beijou-o nos labios e o mordeu de leve. Todos observavam aquilo como urubus. Ela tinha lhe arrancado um pedaço. Ela o mastigou.
Assim sucessivamente, deglutiu a tristeza junto com a carne que agora representava para ela mais do que um morto. Era o seu morto.
O corpo no chão, a boca lavada de sangue, os espectadores pasmos passavam mal e tinham espasmos estomacais.
Aquilo era tão asqueroso, tão tenebroso.
Ela se deliciava com a iguaria, apreciava todos os pedaços dos miolos jogados pelo asfalto ainda quente do sol. Seus cabelos loiros lhe grudava no rosto escarlate. Já não se reconhecia o morto, multilado, almoçado ali.
Foi quando ela se abaixou e mergulhou os dentes dentro da cabeça rachada, olhando de canto de olho aos espectadores ainda presentes. Ouve-se gritos.
Ela lhe lambe os ossos e mastiga-lhe as cartilagens da orelha.
Quando ela enfia a mão na sua cavidade abdominal e expoe suas viceras, houveram algumas pessoas que desfaleceram, o resto observava atentamente aquilo como se tivesse a espreitar macacos se alimentando em um zoo.
Acaricia o rosto ausente, beija-lhe a frente dentaria tão convulsamente como se quisesse reavivar seu esqueleto. Coloca os dedos dentro da fratura exposta do braço, sente o osso pontiagudo que rompe a carne.
Então ela alojou seus braços infantis na cintura do corpo cadavérico, o puxou para a calçada em um esforço quase que inutil, lá havia uma praça. Sentou a forma semi-comida ao pé de um carvalho antigo. Sentou-se a frente dele e observou a noite chegar.
Sua mãe passa, briga com ela pela roupa suja, manda ela ir embora lavar-se, onde ja se viu uma moça tão bonita andar por aí parecendo uma açougueira. Ela se levanta e some, cambaleando entorpecida pela rua escura.
A pitoresca paisagem ante meus olhos frios não é o suficiente para degelar a minha’lma. Na minha cabeça, o conservado sumo da putrefação aparente do meu corpo segue-se como abscessos de sangue borbulhante. O ódio incluso nas palavras ditas, mesmo que carinhosamente, não são ouvidos. Ninguém se importa se eu choro, mesmo porque eu não choro para alguém ver.
Eu espero que o mais cedo possível eu possa saber o que a vida me reserva, nadar em lodo sempre foi meu programa favorito. Eu vou derrubar as arvores e transformar meu espirito em algo funesto. As pessoas terão medo de me olhar nos olhos, eu representarei o lobo em pele de cordeiro, aplicarei o bote como cobra-coral, sem medo dos abutres que me rondam.
Sim, eu vou me lavar com seu sangue. eu não tenho mais medo dos pesnamentos dos outros. Eu só quero apodrecer em paz. Me deixem em paz.
Passeio pela casa ainda com o corpo molhado do banho quente.
E eu ainda sinto o cheiro dele por toda a sala. Sento no sofá de camisola e penso no que fazer. Provavelmente agora é tarde demais para um arrependimento, ou um simples ‘me desculpe’.
Agora isso já não faz mais diferença. Pego um dos discos antigos de ficavam na prateleira marfim e coloco no toca-discos antigo. Vou até meu quarto e pego papel e caneta. Rabisco três linhas mal escritas em uma folha semi-dobrada. Olho para a parede azul da sala.
Me sinto tão profunda hoje.
Acho que a solidão me cai bem, e aquela guitarra antiga do disco começa a fazer sentido para mim. Meus pés queimam no chão. Estranhamente.
Eu me sento ao pé da mesa da sala, ao lado do Buffet de vidro.
Minha mão escorrega devagar na lateral dele até que em um súbito ímpeto lanço meus dedos entreabertos ao armário estilhaçando a porta do mesmo.
Não, eu não estava me sentindo triste, nem com raiva.
Cada pessoa tem seu jeito de se auto-destruir, eu não gosto nada da idéia, mas ver os cacos no chão me fizeram refletir. Eu me auto-destruo aos poucos…
Levanto ainda com o braço sangrando, sento no sofá observo a expansão lenta do liquido avermelhado no tecido branco.
A minha mente estava tão ausente que quando me dei por mim, minha mão estava roxa.
Calmamente eu acendi meu ultimo cigarro do maço, peguei a chave do carro e fui até a garagem do apartamento.
Não sei quanto tempo se passou, não tinha noção nem de que horas eram.
Era tão estranho.
Ele foi me visitar no hospital, com um olhar piedoso que me deu nojo.
“Não precisava disso”, disse ele. Pobre homem, alma calada. Eu nunca me cortaria por ele.
Eu queria me absorver, me diluir, por fim acordar nova.
Não gosto que minha face transpareça aos outros.

