Cambaleia metros a fio, já não se via nada.
A visão turva queria abandonar de vez os olhos
Mãos tremulas, segura o chão de leve
Sente e tateia a terra dura
Suja os joelhos de sangue
E continua a se arrastar
Um, dez, cem metros
Sente os ossos atritarem com o solo
Os pedaços de matéria viva ficando pelo seu caminho
Como um asqueroso gastrópode gosmento
Já não se vê mais o revestimento das mãos
Vai se desintegrando no asfalto quente
Faz meio-dia, o sol queima seu cerebro exposto
O suor frio desse pela sua testa flamejante
A água do seu corpo seca com rapidez
Desidrata como uma erva morta
Um resquicio de gente tendo como apoio seus braços
Desmaia repetidas vezes, a pele do seu rosto adere ao chão
A crueldade da sua caminhada desperta curiosos
De repente, deixa-se seguir por uma multidão
Os carros passam em câmera lenta
Tudo começa a reduzir até que não sobra mais mundo
Até que não sobra mais vida nenhuma
O show não precisou continuar.
Ao passeias dentro das entranhas frias de nosso pobre pensador
Veio a mim o garfo e faca e a vontade de dizer blasfemias
Palavras bonitas ele cospe no tempo
Ele marca as imagens da parede com sua saliva
E como se lambesse os sentimentos, simplemente escarra
Escarra o que sobrou de si mesmo no chão.
Tudo sangra em volta dele
As frases se formam de modo academico e doído
Um corte duro de estilete na carne mole do olho esquerdo
O fino fio da lamina a arrepiar os pêlos dos ouvintes
Um golpe cruel, uma pedrada na nuca.
Prevalesce porém aquele choro ardido
Que deixa o rosto vermelho, que deixa a vista embaçada
O nó da garganta, a frustração do dia nublado, da tristeza interna
A saudade de algo que não existe como físico.
O simples vociferar de palavras de amor.
E o eco vazio da cabeça, e as mãos vazias no espaço
Aos poetas, lhes dou a carne; algo mais vivo que isso não existe
A purulenta vícera para que sirvam-lhes de inspiração
Para que seus espíritos cansados que repolsam no lodo
Possam orgulhar-se de mais um pensamento escrito em fezes.

