Casa Hum


“Jack” ou “Um Recado ao Alterego Mutilado”
June 28, 2009, 1:26 pm
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Eu sou.
Eu sou as mãos necrosadas de Jack
As mãos purulentas deixando vestigios de DNA pegajoso no estofado branco, na tarde de domingo mais quente que tivemos em vinte anos.
Eu passeio por dentro da carne morta do machucado de Jack.
Eu sou o parasita que mora no intestino de Jack.
Causando todas as piores dores abdominais que ele sempre sente ao levantar pela manhã.
Eu faço ele defecar sangue e sentir mais um pedaço do seu corpo exteriorizado.
Eu sou o frio na espinha de Jack.
Aquele frio de ódio de estar em vários lugares. A onipresença do que não existe dentro de cada um de nós.
Eu sou o olho vazando de Jack e sou também os vermes que habitam seu pé.
E percorro cada parte do corpo de Jack como uma metastase. Meu intuito é virar uma parte do Jack.
Eu sou a micose da virilha dele. Eu sou a herpes em seu pênis.
Pronto para me espalhar em toda sua estrutura. Eu sou o cancêr que ele ainda não desenvolveu.
O Jack.
Ele me pertence. Ele é minha casa e a minha comida. Ele é tudo de podre que tem em mim.
E ele me entende. ELE ME ENTENDE.
Ele é o único que conversa comigo quando eu estou só.
Ele é só a personificação da dor da alma na carne.
Eu sou o Jack. O Jack sou eu.
Eu sou a fratura craniana dele.
Ele passa a mão necrosada no cerebro exposto. Ele não sente. Eu sinto.
A mão purulenta deixando secreção amarelada fétida por toda a extensão da cabeça. O osso aberto, triturado, amassado.
Eu sou a ferida que não cicatriza. O corte no céu da boca que fecharia se ele parasse de passar a língua. Eu sou o gosto de sangue que causa arrepios no Jack.
Um dia eu matarei Jack. Ele sabe.
Porque se eu sei, ele com certeza sabe.
Porque eu sou o Jack. O Jack sou eu.



Entulho
June 14, 2009, 2:49 am
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Acordei no meio da noite, não sabia unde estava. Aos poucos a consciencia foi voltando.
Eu tive um sonho ruim, mas agora eu não me recordava sobre o que era, caminhei até a cozinha para tomar um copo d’agua. Foi simples, desceu facil, porém não houve métodos de voltar a dormir.
Isso já vem acontecendo a varias noites. Fico até o clarear do dia mirando o guarda-roupas em frente a cama e o grande espelho junto a porta do quarto.
Me levantei. Coloquei a mesma roupa de sempre, mas hoje eu não ia trabalhar.
Peguei as caixas que estavam na sala, coloquei no carro. Abri a garagem e sai.
Cheguei no apartamento dele, subi as escadas com as caixas, toquei a campainha. Uma mulher recepcionou, ela tinha uma criança nos braços. Chamou-o, ele veio. Pegou as caixas, fechou a porta e acabou.
Eram seus últimos pertences na minha casa, e não sei porquê, na época eu que não o deixei levar.
Hoje, quase um ano após a nossa separação eu resolvi que não quero lembrar.
E não queria. Não era só dele. Era tudo.
Desci as escadas. Entrei no carro. Fui para minha casa, lá, me livrei de tudo que lembrava pessoas. Fotografias, pertences, presentes, pelucias, lençóis, perfumes, jóias, almofadas. Até me desfiz do conjunto de sofás. Enfim.
Eu estava só.
Agora eu deveria recomeçar a colecionar lembranças do zero, como se eu não tivesse ninguém junto a mim nesses últimos 20 anos.
Deitei na cama, esperando uma noite de sono descente. Adormeci em meio ao vazio emocional na qual eu pairava agora.
Acordei descoberta, com a janela aberta e uma corrente de ar horrível entrando por entre ela. Levantei-me, olhei no relógio, eu havia dormido a pouquissimo tempo. Fechei a janela.
Me prostrei na cama olhando para mim mesma no espelho.
Entrei no meu olhar e vi minha existência vazia, vazia, vazia.
Então ergui-me novamente de subito, com a mão no peito como se fosse infartar, uma dor convulsiva na alma. Não respirava, não podia me sentir só, não queria me sentir só.
Sai andando pela casa como uma lunática atras de algo que pudesse acalentar meu coração, dar o calor de saudade que fizesse eu me sentir menos única.
Abri os guarda-roupas, revirei todas as gavetas, e la no fundo, esquecida, uma camiseta.
Dele.
Dormi com ela nos braços, sonhei com ele, me senti aquecida por aquilo. Talvez ele tambem estivesse pensando em mim.
Porque não.
Hoje eu entendo que eu posso ser única na vida de alguém, e eu quero transformar as pessoas em únicas pra mim.
Amanhã, talvez eu recupere algumas lembranças.



Pêndulo
June 14, 2009, 2:14 am
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Tristeza perene de mãos duras e brandas
Alisando a pelucia de outras décadas felizes
Os cortes não são vistos em minha carne
Porém meus ossos marcados atestam
Penitencias da alma pagas no corpo.
A hora passa, o branco chega lentamente
E tudo se transfigura em um furta-cor belo
O segredo é não deixar transparecer.

Por mais que andemos para lados opostos
Minha mão sempre acariciará seu rosto
Por mais que seu pensamentos se perca
A chuva sempre terá o mesmo gosto.
Passado de mim pra você.
Aos olhos cansados de espectadores
Espectadores vivos cheirando a cadaveres.

Nossa sina, nosso mal
Minha alma briga com meu sentido.
Não existe lógica, é uma condenação.
O destino se faz cumprido, como previsto
O açoite se faz afiado ao algoz
E assim pequenos pedaços de vidro
Tomam conta da ferida.



Pesames
June 12, 2009, 1:59 am
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Para comemorar, um copo de vinho
Celebrando todos os nossos equívocos
Dia após dia.
Brinde comigo novamente, naquele mesmo lugar.
Brinde a miséria de sermos nós
De sermos tristes.
Vamos comemorar toda a nossa podridão vertendo.
Entre os lençóis que sujamos.
Em quais lugares estaremos seguros de nós?