Filed under: Poemas
Debaixo dos teus olhos
Olhos que não queria ver
Das águas que me afogo
O doce e amargo sofrer
Tudo morre e apodrece
Ao toque da minha mão
E a tristeza já não entristece
Não há mais salvação
Minh’alma condenada
Sofre com saudades sua
E sua face imaculada
Brilha como a luz da lua
Meu corpo treme
A imaginação clama
Por um suspiro perene
De felicidade a quem se ama
A tudo nessa vida
Devo a seu sorriso
E o arrepio do seu abraço
É somente o que preciso
Descanso porém no sol
Onde é quente e iluminado
Esperando que um dia
Isso tenha se acabado
Saio de mim e nos momentos
Chamo por você em pensamento
Deliro em sonhos de febre
Convulsionado pelo sofrimento
Nada resta na casca
Me encontro do lado de fora
Meu corpo padece na terra
Enquanto minha’lma chora.
A decepção anda ás voltas do prazer
Ficamos presos em círculos
Repentindo poemas milenares
E a única coisa que podemos nos orgulhar
É da certeza de não sermos eternos.
A palavra morta no prato
Comida
O que ela te diz?
Me diga
Escreva em vermelho sangue
A carne do prato
Mentira.
A morta palavra de degustar
A fome calada
Alimentar
Paladar
A palavra sente fome
Fome é para se saciar
O dicionario sedento
O encontro do garfo com o dente
A comida toca o céu da boca
Sente, sente o gosto quente
O livro comido, sangrento
Ao suado odor do vento
Mal passada as letras
As palavras se formam
Sintetizam
Excreções
Prazer em gestos mortais
Gorduras letais
De cores e sensações
Eu era puro e a pureza trouxe aos meus olhos a tristeza de não viver.
O que era cinza em mim, nunca teria cor, assim os dias se passavam. Sem felicidade, dem dor, sem nada. Inertes, como minha vida.
Até que uma certa criatura banhada de raios de luz me levou para o mundo dela, e lá eu aprendi a cantar no tom dos pássaros e apreciar as estrelas. Ela me ensinou a andar pelo meio-fio sem ter medo e me guiou para uma imensidão desconhecida dentro de mim.
Logo a beleza tomou forma em meus olhos e eu pude enfim ver as cores, e sentir como elas me fizeram falta. Nada foi do mesmo jeito depois que ela entrou na minha vida, o sentido veio até mim como um pai zelando pelo seu filho, pegou nas minhas mãos e me levou para conhecer o que eu vivia.
Eu esperava todos os dias que o sorriso dela me fizesse mais feliz, que o seu toque me transportasse desse mundo de sombras em que estou.
Desejei estreita-la em meus braços, sentir o cheiro da sua pele, sentir o gosto do seu corpo. Como eu quis dizer tudo o que me afligia e não fugir do que eu sentia. Mas era impossível pra mim. Tudo era impossível.
Me vi imobilizado por aquilo. Era algo que eu nunca havia vivenciado, uma sensação de vazio tão grande quando eu não escutava a voz dela que eu me sentia surdo. Sentia-me aquecido por aquele sentimento, mas ao mesmo tempo aprisionado aos desejos dela.
Impotente e sem controle do que agora me tornei.
Sentei-me dentro de mim para refletir e constatei a pior coisa que poderia me acontecer: eu estava apaixonado.
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Ao levantar pela manhã sente-se mal, senta de novo na borda da cama e respira profundamente.
Mais um dia de agonia, naquela cidade quente.
Vai até a cozinha pisando no chão gelado, que agora trazia a ele a melhor sensação do mundo.
Sentia seus pés formigarem com o choque da temperatura do seu corpo com o tempo. Toma uma xícara de chá morno e come bolachas de agua e sal.
Caminha até o guarda-roupas, abre, olha, estuda que roupa seria mais confortavel para enfrentar o inferno que estava lá fora, na rua. Mas ele não tem escolha. É terno e ponto.
Pragueja a sua profissão, pragueja o forum e o juiz. Veste-se, sai.
Descendo a escada do prédio, são dois andares, ele vai chegar suado no trabalho. Passa pelo porteiro, pega sua correspondencia e vai até a calçada. Atravessa a rua em passos rapidos, coloca a chave na porta do carro. Entra.
No automóvei imóvel ele tenta relaxar, tira o paletó, joga no banco de trás, coloca um disco do Legião Urbana pra tocar. Liga o ar condicionado, abre o vidro.
Pronto. Ele liga o carro enfim. Antes de partir, ele olha o céu. Não é azul, é cinza. Ele olha as pessoas. Não tem ninguém na rua.
Segue sem reparar ao redor. Passa por um, dois, três semáforos, esquerda, segue reto, esquerda novamente. Avenida, trânsito. A música pula no toca-cds, ele se irrita. Olha o relógio. É tarde.
Olha o céu, é cinza.
Olha o carro, é preto. E o paletó, é preto.
Os outros ao redor o deixa constrangido.
Então ele, como se falasse com sua própria consciência profere:
“E a vida? Cadê?”
As buzinas, o céu, o carro, o paletó, o calor, o trabalho, o chá, a tontura. Nada parece ser bom o bastante pra ele.
Ele abre a porta em meio ao engarrafamento, sobe no capô. Sobe no teto. Olha para o céu, olha para a fila de carros multicolores e grita com as mãos para cima como se sentisse dores horriveis:
“E a vida? Cadê?”
Não trabalho no cemitério
Nem sou uma velha cansada
Sou uma pessoa comum
Que gosta de vicera assada
De qualquer uma eu como
Bem temperada, de quem vier
Bebês vivos, cães mortos
Seja homem ou mulher
Não tenho preferencia
Mas sempre com um bom vinho
Entre um prato de estomago
Temperado com cominho
A sopa é especial
Eu sempre capricho nela
Olhos humanos ao sal
Cozinham na minha panela
Meu habito asqueroso
Não julgo tão errado
Espere até eu provar
Seu figado acebolado
Já não me preocupo com sangue
Dizem que estraga o paladar
Arrumei uma receita nova
Para servi-lo de molho no jantar
Após a refeição
ainda tem a sobremesa
a junta dos seus dedos
Com calda de cereja
Agora não se faça de rogado
Puxe uma cadeira, pegue um prato
Experimente um pouco e diga
O que acha da fritada de rato.
Ele corre pela rua desesperadamente como se fosse perseguido, mas na verdade ele só tinha esquecido a chave na casa da Juliana. Parou um pouco perto de uma árvore, ja estava quase chegando. A aflição vinha e ia de seus olhos.
Não estava bem, ele suava, não de calor, de nervoso.
Suas mãos eram frias e sua boca foi começando a empalidecer.
Pensou que assim que chegasse na casa de Juliana, apanharia suas chaves e esperaria até a sensação ruim passasse, voltou a correr.
Convulso, a força já não ia as pernas e um quarteirão antes do destino, desfalesceu em meio a rua e fora atingido por um automóvel. Jogado longe, ensanguentado e provavelmente já sem vida.
As pessoas se aglomeravam em volta da poça avermelhada, um falatório em massa, um grito. Juliana vinha, chorando.
Sentou no chão, juntou com as mãos o que restava dele. Sussurrou algumas lamurias e se afogou no sangue do peito do rapaz, perplexa com o que tinha acontecido.
A garota beijou-o nos labios e o mordeu de leve. Todos observavam aquilo como urubus. Ela tinha lhe arrancado um pedaço. Ela o mastigou.
Assim sucessivamente, deglutiu a tristeza junto com a carne que agora representava para ela mais do que um morto. Era o seu morto.
O corpo no chão, a boca lavada de sangue, os espectadores pasmos passavam mal e tinham espasmos estomacais.
Aquilo era tão asqueroso, tão tenebroso.
Ela se deliciava com a iguaria, apreciava todos os pedaços dos miolos jogados pelo asfalto ainda quente do sol. Seus cabelos loiros lhe grudava no rosto escarlate. Já não se reconhecia o morto, multilado, almoçado ali.
Foi quando ela se abaixou e mergulhou os dentes dentro da cabeça rachada, olhando de canto de olho aos espectadores ainda presentes. Ouve-se gritos.
Ela lhe lambe os ossos e mastiga-lhe as cartilagens da orelha.
Quando ela enfia a mão na sua cavidade abdominal e expoe suas viceras, houveram algumas pessoas que desfaleceram, o resto observava atentamente aquilo como se tivesse a espreitar macacos se alimentando em um zoo.
Acaricia o rosto ausente, beija-lhe a frente dentaria tão convulsamente como se quisesse reavivar seu esqueleto. Coloca os dedos dentro da fratura exposta do braço, sente o osso pontiagudo que rompe a carne.
Então ela alojou seus braços infantis na cintura do corpo cadavérico, o puxou para a calçada em um esforço quase que inutil, lá havia uma praça. Sentou a forma semi-comida ao pé de um carvalho antigo. Sentou-se a frente dele e observou a noite chegar.
Sua mãe passa, briga com ela pela roupa suja, manda ela ir embora lavar-se, onde ja se viu uma moça tão bonita andar por aí parecendo uma açougueira. Ela se levanta e some, cambaleando entorpecida pela rua escura.

