A alma continuava apodrecendo. Agora tinha cor âmbar. Tudo se misturava com o vento.
Ela tinha a impessoalidade grudada na pele, ela tinha o nervoso pulsante nas mãos. Ela não tinha olhos, mas tinha coração. Ela não tinha sonhos, não tinha mais sono.
Andava um andar brando, cambaleante e solitário. Ela não queria parar. Talvez quisesse, mas seu corpo não a obedecia, era autônomo.
Seus músculos se comprimiam, lhe causavam dores horriveis, mesmo assim ela continuava. Não chovia. Era dia claro, sem pessoas nas ruas. Talvez estivesse só.
Sucumbiu. Deitou no asfalto quente e deixou que o sol derretesse o resto de alma que exalava. Sofreu de fato, morreu de fato.
De repente, com atingida por um raio, levantou-se em um salto.
Já não estava mais na rua, já não estava mais com dores.
No seu quarto, em frente a um grande guarda-roupas de cor marfim ela ergueu-se.
Abriu uma das portas. Não. Aquele não era seu quarto.
Onde estaria agora.
Isso era uma coisa que lhe acontecia com frequencia. Ela tinha tantas realidades em sua cabeça que sempre se perdia entre sonhos. E agora, estaria sonhando?
Olha, olha ela
Ela tem olhos atentos
Ela tem boca de marmore
Ela tem mãos estranhas.
Olha, vê.
Ela não sorri
Ela não se mexe
Ela está sozinha
Toque, sinta
Ela é fria
Ela é aspera
Ela não te sente.
Beije-a nos labios
Ela não é de vidro
Ela não chora mais
Ela não se importa
Leve-a consigo
Ela não pensa
Ela não te deseja
Ela não te decepciona.
Eu, que não tinha necessidade de nada
Hoje tive necessidade de vida
Quebrei as janelas de vidro
Tirei as cortinas e deixei
Deixei o sol queimar minha pele.
Eu, que não tinha vivido nada
Hoje tive que viver
Replantei as flores
E reguei o jardim
Tomei banho de chuva.
Eu que não podia mudar o tempo
Hoje tive que me mudar
Para me adequar ao tempo
A vida não espera acordar
Acordo sem saber quem sou.
Eu que não queria morrer
Hoje tive que e deixar levar
Já tinha cumprido meu papel
Eu coloquei cada coisa em seu lugar
Fecho a porta e simplesmente vou.

