Passeio pela casa ainda com o corpo molhado do banho quente.
E eu ainda sinto o cheiro dele por toda a sala. Sento no sofá de camisola e penso no que fazer. Provavelmente agora é tarde demais para um arrependimento, ou um simples ‘me desculpe’.
Agora isso já não faz mais diferença. Pego um dos discos antigos de ficavam na prateleira marfim e coloco no toca-discos antigo. Vou até meu quarto e pego papel e caneta. Rabisco três linhas mal escritas em uma folha semi-dobrada. Olho para a parede azul da sala.
Me sinto tão profunda hoje.
Acho que a solidão me cai bem, e aquela guitarra antiga do disco começa a fazer sentido para mim. Meus pés queimam no chão. Estranhamente.
Eu me sento ao pé da mesa da sala, ao lado do Buffet de vidro.
Minha mão escorrega devagar na lateral dele até que em um súbito ímpeto lanço meus dedos entreabertos ao armário estilhaçando a porta do mesmo.
Não, eu não estava me sentindo triste, nem com raiva.
Cada pessoa tem seu jeito de se auto-destruir, eu não gosto nada da idéia, mas ver os cacos no chão me fizeram refletir. Eu me auto-destruo aos poucos…
Levanto ainda com o braço sangrando, sento no sofá observo a expansão lenta do liquido avermelhado no tecido branco.
A minha mente estava tão ausente que quando me dei por mim, minha mão estava roxa.
Calmamente eu acendi meu ultimo cigarro do maço, peguei a chave do carro e fui até a garagem do apartamento.
Não sei quanto tempo se passou, não tinha noção nem de que horas eram.
Era tão estranho.
Ele foi me visitar no hospital, com um olhar piedoso que me deu nojo.
“Não precisava disso”, disse ele. Pobre homem, alma calada. Eu nunca me cortaria por ele.
Eu queria me absorver, me diluir, por fim acordar nova.
Não gosto que minha face transpareça aos outros.
O vidro de complexidade escassa
Ganha a silhueta de mulher
Ganha o sorriso de criança
E rouba dos panos sua cor
A reflexão triste de uma lágrima
Não diz nada a quem se olha
Mas diz tudo ao corpo desajeitado
De quem tenta se embelezar
O quadro de mártirio
Para quem pensa na vida
Olhando no seu próprio rosto
Medindo a profundidade do desgosto
A janela infinita que
Se refletida nela mesma
Forma um quê de orfandade
Uma brincadeira tão vazia
Uma tela que se quebra
Que te corta quando necessário
E te alerta quando possível
Através dela ver o sentido
Um livro, que quando lido
Entrega traços de parentesco
E truques de corações
Que só os olhos cegos vêem.
A mordida provocada
E o beijo na nuca.
A mão passeia no vazio
O cálido corpo estreita-se
No vão vago do espaço
Esperando talvez um par
Talvez um laço
Ternura em um simples abraço
Treme a alma, de prazer
O pecado pecou em nós
A surpresa provou de nós
Somos o que nunca pensamos
E hoje a luxúria virou água
Bebemos o féu do mesmo prazer
As irritantes luzes brilhantes da rua
Machucaram minha visão nua
E furaram nossa carne crua
Por onde passou a linha do tempo
Que nos costurou nesse espaço
Estreito e escuro
Entre a razão e a paixão
Entre a pureza e a podridão.
Aceite-se, aceite-nos
Acabaram-se os mitos da noite
Já se faz claro o dia
E a relação entre animais e cria.
Canso de acordar de sonho repetido
Não durmo há dias
Não vejo mais sentido
Rimas acidentais ocorrem com freqüência
Em frases não-poéticas
Sem muita coerência.
Como as palavras e o sentido vem
Simplesmente de que tenta entender
Que a vida não é nada mais
Do que o incessante correr
Para nos tornarmos o que nunca quisemos ser.
A alma continuava apodrecendo. Agora tinha cor âmbar. Tudo se misturava com o vento.
Ela tinha a impessoalidade grudada na pele, ela tinha o nervoso pulsante nas mãos. Ela não tinha olhos, mas tinha coração. Ela não tinha sonhos, não tinha mais sono.
Andava um andar brando, cambaleante e solitário. Ela não queria parar. Talvez quisesse, mas seu corpo não a obedecia, era autônomo.
Seus músculos se comprimiam, lhe causavam dores horriveis, mesmo assim ela continuava. Não chovia. Era dia claro, sem pessoas nas ruas. Talvez estivesse só.
Sucumbiu. Deitou no asfalto quente e deixou que o sol derretesse o resto de alma que exalava. Sofreu de fato, morreu de fato.
De repente, com atingida por um raio, levantou-se em um salto.
Já não estava mais na rua, já não estava mais com dores.
No seu quarto, em frente a um grande guarda-roupas de cor marfim ela ergueu-se.
Abriu uma das portas. Não. Aquele não era seu quarto.
Onde estaria agora.
Isso era uma coisa que lhe acontecia com frequencia. Ela tinha tantas realidades em sua cabeça que sempre se perdia entre sonhos. E agora, estaria sonhando?
Olha, olha ela
Ela tem olhos atentos
Ela tem boca de marmore
Ela tem mãos estranhas.
Olha, vê.
Ela não sorri
Ela não se mexe
Ela está sozinha
Toque, sinta
Ela é fria
Ela é aspera
Ela não te sente.
Beije-a nos labios
Ela não é de vidro
Ela não chora mais
Ela não se importa
Leve-a consigo
Ela não pensa
Ela não te deseja
Ela não te decepciona.
Eu, que não tinha necessidade de nada
Hoje tive necessidade de vida
Quebrei as janelas de vidro
Tirei as cortinas e deixei
Deixei o sol queimar minha pele.
Eu, que não tinha vivido nada
Hoje tive que viver
Replantei as flores
E reguei o jardim
Tomei banho de chuva.
Eu que não podia mudar o tempo
Hoje tive que me mudar
Para me adequar ao tempo
A vida não espera acordar
Acordo sem saber quem sou.
Eu que não queria morrer
Hoje tive que e deixar levar
Já tinha cumprido meu papel
Eu coloquei cada coisa em seu lugar
Fecho a porta e simplesmente vou.
Muito tempo se passou
A vida levou os bons momentos
Rujia o vento lá fora
Como se nada restasse aqui dentro
Onde nada brotava
Saiu você de mim.
Leve como se não existisse
E majestoso, para ocupar
Vai trazendo o sorriso
Inda que esteja triste
Maravilhoso e encantador
Ainda tão novo, superficial
Com muitas cores, vou pintar
Intimamente, nosso esconderijo de papel
Estamos presos ao vento
Livres para viver como quisermos.

