Corre, corre, corre
Pára, olha, olha.
Atravessa, corre, corre
Pára, desvia, corre.
Corre, corre, corre.
Esbarra.
- Desculpa.
Escorrega, cai.
Levanta, pára.
Estica, arruma e corre.
Corre, respira, pára.
Espera, atravessa.
Passou, caiu, abriu.
Parou, passou, passou.
Sangrou, sorriu, parou
Morreu.
De tanto palpitar
Meu abdômen lateja
Em meio a imunda peleja
Do doce cruel andar
Procuro beleza na coisa feia
Ando e vivo em sujeira mole
Conto água do mar no gole
Como restos salgados na areia
O meu vômito de ontem
Dá de comer aos porcos
Que dão de comer ao homem
O que hoje me dói os ossos
É o que alegra o alguém.
E cospe resto nos pratos nossos.

Eu olho repetidamente
Para uma região inerte
E penso em dar vida
A coisa que não se mexe
Eu espero incessantemente
Algo de novo no ar
Eu amasso rosas
Quero voar
Até pensei um dia
Em parar de pensar
Mas isso é impossivel
Inevitavel, eu sei
Andei por tantas léguas
Ensinando cantigas
Aos passaros crueis
Que esperam a morte chegar
Quebrei coisas antigas
Repintei as paredes
E coloquei a venda
A minha alma vazia
Me engoli por dentro
Digeri meus sonhos
Me completei até destruir
Tudo o que era eu
Explodi meu ego
Invadi meus instintos
Violei meus planos
E me alastrei no vento
Agora eu sou tudo
E nada ao mesmo tempo
Existo, não sou sólida
Mas me espalho como líquido

Reluzia ao norte escuro
Um pingo de flor marinha
A salvar o viajante noturno
Do pesadelo em que caminha
O medo em si é nada
Diante da força de viver
Então a alma atada
Encontra um doce poer
Para o céu não olho mais
Nem perco-me no horizonte
Não conto estrelas no cais
Eu saí detrás do monte
E sei pra onde ir
Quando o dia vai a dormir

