Casa Hum


Aos Nossos Olhares
April 26, 2008, 4:52 am
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Our Love is A Ruin by *armawolf

Olhos errôneos
Andando
Parados
Olhos abertos
Concretos
Discretos
Olhos Fechados
Olhando o tudo
Olhando o nada
Inquietos
Suspeitos
Espreitos
Olhos laçados
Pensados
Surrados
Sensatos
Olhos exatos
Espertos
Soturnos
Olhos noturnos
Congelantes
Dançantes
Olhos Falantes
Refeitos
Agradáveis
Olhos afáveis
Confiáveis
Lindos
Olhos Tímidos
Calados
Perdidos
Achados

Eles se encontram
Cada qual com seus medos e incertezas
E por um instante o mundo pára para admira-los
É belo e incompreensível
Eles se desviam
Cada qual com seus motivos e deveres
Logo, volta tudo como sempre fora
Os olhos que nunca se olharam.



Poltergeist
April 18, 2008, 4:53 am
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Era uma vez um violino cor de sangue que ficava na vitrine de uma loja de peças usadas na rua São Conrado. Todos que passavam olhavam vislumbrados para a cor do instrumento. Era realmente um vermelho vivo que dava até dor na cabeça. Então, uma senhora, já cansada de passar por ali e ter os olhos ofuscados pelo escarlate, comprou o violino e o quebrou. O jogou um terreno próximo e nunca mais teve seu campo de visão atrapalhado. Essa senhora se casou, teve um filho, Alfredo, e morreu jovem, não pôde ver a neta nascer. A casa ficou para o único herdeiro, já que o paradeiro do pai de Alfredo era incerto. Então colocou a pequena Alice para dormir no quarto da falecida. Nada incomodava o sono da menina, dormia como um anjo. O tempo passou e a mãe da Alice acabou se separando de Alfredo, que ficou com a filha para cuidar.
A garota, já com seus quinze anos completos exalava feminilidade por todos os poros, era uma bela ruivinha envolta em roupas brancas. Continuava tranqüilamente a crescer, até que, a menina que não acordava por nada abriu a janela o seu quarto que ficava no segundo andar no meio da noite plena e ficou lá durante muito tempo. Seu pai subiu para repreende-la, já que esfriara e também já era muito tarde, mas a menina não estava no quarto.
Ele andou, foi até o toalete, mas ela também não estava lá.
Onde será que Alice tinha se metido.
De repente ela chegou, andando pelo corredor segurando delicadamente a jarra d’agua. Quando ela chegou a de Alfredo e foi questionada por causa da janela e da agua, ela somente disse: “Olha papai, esta ouvindo essa música bonita, está vindo de lá de fora, é um violino”.
O pai não escutava nada.
A jarra cai no chão, a água desce a escada.
Ninguém nunca soube o que aconteceu naquele dia.



A Alma da Metrópole
April 16, 2008, 4:01 am
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Ela saiu do seu pequeno consultório no bairro da republica, passou pelo Largo são Bento e pensou quantas milhares de pessoas, em plena segunda-feira já teriam passado por ali. Emendando, pensou também quantas poderiam ter o mesmo pensamento que ela. Quantos bebês nasceram no mundo inteiro enquanto ela pensava isso parada na frente do Parque Dom Pedro II.
Era de tarde, e ela ia almoçar em casa, talvez não voltasse ao serviço hoje, mas o clima estava propicio para seus devaneios sobre o mundo, então seguindo com raciocínio semelhante ela foi caminhando passou pelo meio da praça Clóvis Bevilácquia e seguiu até a Praça da Sé. Sentou-se em um banco em frente a catedral e lembrava dos domingos religiosos das famílias na década de 60. recriava na sua cabeça a história de cada uma daquelas gomas de mascar coladas no chão da praça, pensava em quantas pessoas passaram e reclamaram das fezes das pombas nos bancos, impedindo que se sentassem.
Levantou-se, curtindo o momento e seguiu a passos estreitos pela Avenida da Liberdade olhando no rosto de cada pessoa e imaginando vidas e mais vidas. Foi um passeio muito bom afinal. Não sabe quanto tempo demorou para chegar em sua casa que ficava na Rua Dr. Siqueira Campos, Bairro da Liberdade.
Entrou em casa ainda pensando em variados temas sobre a existência humana, a subsistência naquela cidade caótica. Pensou em se mudar para o campo.
“Lá o ar é mais puro”, mas não conseguiria viver sem aqueles rostos que passaram por seus olhos uma só vez, talvez nunca os reencontrasse novamente, mas nunca sairão da sua mente. O povo urbano exala um tipo de sentimento inigualável, que faz dentro da cabecinha da pequena recriadora de historias uma revolução de cores, de gestos, de suposições ilusórias.
Eles são tão puros, ali andando de modo que seus ombros não esbarrem no seu companheiro do lado, em fila, ao lado, correndo, parados, saboreando seus hot-dogs ou fumando encostados em algum muro.
Então ela pensa, senta na mesa posicionada virada para a janela do seu quarto, abre um caderno de capa dura de cor vermelha desbotada e começa sua história:
“Ela saiu do seu pequeno consultório no bairro da republica (…) ”



O Tártaro
April 9, 2008, 2:57 am
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Acima das pontes do tempo
A escuridão pode trazer
Um presente sincero e exato
Cujo ninguém pode descrever

No chão, bem aqui padeço
Em meio a essa imensidão
Com santos de aço e concreto
Somente uma sombra na escuridão

Por entre os dedos escorre a areia
Dos tempos que se foram logo
E para os dias que restam
Por horas boas eu rogo

Se na vida nada se esquece
Se na alma nada se cala
Deixo o sangue que cobre minha veste
Interromper essa minha fala

E as lágrimas que deixo no mundo
São sinais de minha dor
Assim a falência da existência
Tem ao menos algum sabor

Como o amargo da ilusão
Que assolou meus olhos brandos
Irrevogou as minhas preces
Trouxe de volta meus prantos

Se a tudo devo a Deus?
Não, tudo devo a mim
Pois não nasce flor alguma
De esperança em meu jardim

Esqueço-me de tudo o que passou
Na missão que a mim foi convertida
Mas se piedade ainda existe
Que ao menos olhem por minha vida



A Primeira Insônia
April 9, 2008, 2:23 am
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Estou aqui sozinha,
Nesse momento
Me sinto presa num destino,
Louco desatento

Que me mostrou um tipo
De tratamento
Para curar a dor e tirar
Meu tormento

Quando você não dormir
Deite ao relento
Que o sono vem,
Vem como o vento.

[meu primeiro poema documentado - data de jan/2003]



o Poer de um Poema
April 9, 2008, 2:15 am
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Barrados nas fronteiras da alma
Nos dirigimos às profundezas do inferno
Não devemos nunca perder a calma
Prosseguimos rumo ao eterno

A porta se abre, um anjo saí
Envolto em véus e espelhos
A porta se fecha, um anjo caí
Envolto em lágrimas e panos vermelhos

O céu ferido é um carma da noite
Palavras cortantes e golpes de açoite
O acordar de um azul escurecido

Se para o leste o ouro ébrio subtraí
O sonho acorda já com o dia amanhecido
E para o oeste um simples verso se contraí



Bertran
April 9, 2008, 1:45 am
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Bertran Paint .

["inspirado no conto Bertran,
de Álvares de Azevedo, 'Noite na Taverna']

Oh minha espanhola sonhadora,
Minha perdida, mulher
Que destino triste me reservara
Meu coração bate entre espinhos.

Deixar-te fez em mim um vazio
Ângela de Candiz,
Cabelos negros, doces mãos
O próprio arrepio do prazer.

Tens outro amor,
Tens um fruto dele
Que sorte horrenda em vida
Minha única e verdadeira paixão.

Os olhos marejados de lágrimas
Uma exitação cruel no peito
Fez ter nas mãos coragem
Fez suicidar seu passado.

Lavado com sangue
Nosso presente recomeça
E tu de novo
Faz desaguar em meu peito a solidão.

Chorei as ultimas gotas
Meu copo de vinho estava vazio
E aquela jovem,
Então amou-me só.

Ébrio e farto dela
Joguei pela noite e vendi-a
Como fui cruel
Pois “a saciedade é um tédio terrível”.

Naquela tristeza,
Nada mais importava
Entreguei meu corpo às ondas do mar
Que me regurgitaram à superfície.

Fui salvo e alguém entregou-se em meu lugar
Pretendiam saber de onde eu era
“Um desgraçado que não pudera viver na terra
E que não deixaram morrer no mar”.

Vivi pois, minha vida mísera
contemplando a mulher mais bela
Intocável dama
Senhora do lobo-do-mar.

Certo dia, amei-a
“Porque dizei-vos mais?
Ela também amou-me”
O comandante dormia.

O gajeiro apontou outra nau
Os piratas aproximam-se
Põem abaixo nossa embarcação
Deixam boiar cinco tripulantes vivos.

Em terra firme, dias a fio
O estômago pedia por saciar a fome
Por matar a sede
Como cães que farejam sangue.

Restavam três figuras macilentas
Fétidos cadáveres famintos
Eu, a bela e o comandante
o que nos restaria então?

Tiramos a sorte de morrer
E o velho senhor teve que negar a vida
Eu ri-me pois tinha fome
Enfim sucumbiu nos dando saciedade por dois dias.

Madona alva, já sem forças
Propôs morrermos juntos
Dei-lhe a mão e fomos
Nos entregamos ao mar que nos cercava.

Estava louca, louca
Tomava água salgada dizendo ser vinho
E eu carregava a febre e a fome
Carregava a esperança e a desilusão.

Sufoquei- em meu abraço convulso
Dei a ela o último beijo ardente
Meus lábios estalavam, ressequidos
Enquanto a onda roubava o cadáver da areia.

Não me lembro quantos dias se passaram
E quando acordei desse sono atordoador
Estava já em um navio
Que talvez tivesse destino à vida novamente.



Prova de Amor
April 8, 2008, 10:27 pm
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Pear . occisioth

De mãos atadas eu perco o caminho
Eu ando descalça
Eu vejo o sol nascer e se pôr

De mãos atadas eu olho para mim
Eu olho para tras
Eu quero ir para onde for

Você, me ensinou a andar lado a lado com a dor
Você me ensinou a dizer “eu te amo”
Me ensinou a entender o amor

Você que está sem carinho
Não fique sozinho
Eu te acolherei

E nos seus braços a dor se esvai
E minha vida decai
A espera de um beijo seu

E o meu coração dispara
E minha alma se depara
Com uma ardente paixão

E os meus braços te atraem
Para os caminhos levarem
Você ao meu coração



Comida de Gato
April 8, 2008, 1:33 pm
Filed under: Textos | Tags:

Cat Food ~

Era uma vez uma mulher, e essa mulher tinha três filhas pequenas, e muitos, muitos gatos.
Na casa dela, predominavam as sujeiras típicas de gatos, e ela tratava os gatos como filhos e as filhas como animais de estimação.
Enquanto os animais eram tratados a doces e pratos exóticos, as garotas eram tratadas a ração, não tomavam banho nunca e não falavam, não eram ensinadas nem a usar o banheiro.
Era triste o ar daquela casa, as meninas, ainda pequenas corriam apoiadas nos joelhos, miando e brigando pela bola de linha de bordado, na qual a mulher usava para bordar a roupa dos peludos, enquanto as pobres meninas andavam nuas, se envolvendo em panos sujos pela casa.
As dezenas de gatos incomodavam deveras os vizinhos, já que a mulher morava em um apartamento apertado e então eles decidiram colocar veneno na comida dos gatos, seria um alivio se livrar daquele barulho.
No dia seguinte os gatos continuavam a miar.



Metamorfose
April 6, 2008, 2:16 am
Filed under: Poemas | Tags:

Beetle's Photo

[inspirado no livro 'Metamorfose'
de Franz Kafka]

O mistério nas patas do animal rastejante
Contam muitas histórias passadas
Seus olhos saltados
São provas do pavor

A vida era tão comum
Talvez não necessitasse de emoção
E um dia pela manha
Não se levantou

O medo tomou conta
Do que passou a ser você
O medo tomou conta
Do que passou a ser o mundo agora

Está tudo tão diferente
Porque isso lhe aconteceu
As batidas na porta mostram
O alarme já soou a tempos

Recebendo comida e água
Recebendo desafetos e nojo
O violino já não toca
Não tocam as sinetas surdas

O andar de sua alma paraplégica
Dentro do buraco aberto
É lento e dolorido
É triste olhar para as paredes

Até que o frio congela sua carapaça
O sangue purulento para de vazar
O coração de bicho para de bater
E jorra lágrimas humanas

Até morrer ali
Ali, como sempre viveu
Todos festejam com gozo
E fecham-se as portas.