Casa Hum


O Amor
March 28, 2008, 4:24 pm
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Eu estava sentada lá, na sacada, como sempre ficava depois que chegava do trabalho, quando as primeiras gotas de chuva cobriram minha pele, e eu inerte no cansaço ficava só ali, esperando a chuva ir embora.
Dez anos já havia se passado de todos aqueles acontecimentos e aquela casa que ja tinha sido pequena pra tanta gente, hoje escuta-se o eco da solidão.
Após umas três horas de chuva eu consegui me levantar e entrar, peguei uma toalha e fui ao banheiro tomar uma ducha. Na ida liguei os recados da secretaria eletrônica que na maioria das vezes só tinha mensagens do escritório, depois de escutar cerca de vinte delas, o aparelho expeliu uma voz familiar, era ele, eu tinha certeza.
A mensagem falava que ele queria me ver e deixava um número de telefone. Na minha cabeça passavam-se milhares de idéias, o que fazer.
Tomei meu banho tranquilamente saí e retornei o telefonema. Já era tarde, mas só me dei conta quando o telefone já estava chamando, desliguei.
Logo em seguida, meu telefone tocou. Eu disse ‘alô’ brandamente e ele, do outro lado da linha disse com uma voz de satisfação ‘ Heva? Nossa, quanto tempo. Achei que você não me retornaria’.
Minhas mãos tremiam, eu não conseguia segurar o telefone direito, então ele soltou:
- Preciso te ver, posso ir aí?
Eu falei:
- Agora?
- É, algum problema?
- Não, pode vir.
Ele chegou, molhado ainda da chuva que não cessara, cansado pelos 3 andares de escadas e com uma caixa dos meus bombons preferidos, que, por coincidencia eram os dele também.
Me abraçou sinceramente e falou:
- Posso passar a noite com você?
Olhei com uma cara assustada para ele, afinal, fazia muito tempo que eu não recebia uma companhia masculina para pernoitar aqui. Então ele falou que não estava mal intencionado não, que só queria relembrar os velhos tempos em que sentavamos e comiamos chocolates tomando chá e conversando da vida.
Mas os tempos eram outros, eu não morava mais com o Jorge e ele morava com a Ângela ainda e isso me fazia muito mal. O Pedro foi o primeiro e o unico homem que eu amei verdadeiramente e ele nunca soube disso, eu não tive coragem de abalar uma amizade de tantos anos com qualquer besteirinha adolescente.
Tinha algo triste e deprimido na voz dele, não era tão alegre e furtivo quanto antigamente, a maturidade nos trouxe melancolia.
Então, tão rapido como um golpe de punhal ele disse:
- Ângela morreu…
Por um momento, dentro de mim uma vontade de rir incontrolável tomou conta, eu não sabia o que dizer, eu olhava pra ele e só conseguia imaginar coisas que eu não poderia imaginar naquele momento. Ele era louco por ela.
Eu fiz o chá, ele me falou que era muito recente, que ele precisava de mim e falou que só eu podia fazer ele esquecer a dor da perda, e chorou. Desta vez eu também chorei e disse a ele que eu não era mais a mesma de tantos anos atrás, mas que o meu sentimento por ele nunca mudou, e segurando as palavras que eu queria realmente dizer dentro de mim, disse que eu queria muito bem ele e que eramos amigos, mais que amigos, irmãos.
Ele me olhou com uma cara de desapontado, me deu um beijo carinhoso na testa, exatamente no meio os olhos, do jeito que ele fazia a doze anos atrás, quando nada estava traçado, quando a tristeza era passageira, não perene, do jeito que pairava ali.
Dormimos no chão da sala de mãos dadas, como irmãos com medo da chuva.
No dia seguinte eu acordei e ele já tinha ido, mas deixou a mesa do café posta e um bilhete que dizia:
“Nossa amizade é bela, mas o que eu tenho por você é mais que tudo isso, me casei por não ter a opção de passar minha vida do seu lado. Eu sempre te amei. Pedro”



Eutanásia
March 28, 2008, 4:19 pm
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Maria morava com seus oito filhos ali, embaixo daqueles papelões do outro lado da rua.
Maria não tinha o que comer a três dias.
Ela via as crianças chorarem, então, naquele dia, aquilo tinha que acabar.
Juntou todas as econômias, foi a uma feira próxima e conseguiu comprar com os trocados meio quilo de batatas e 3 pastilhas de veneno para ratos.
Naquele dia as crianças comeram, Maria comeu.
Não se ouviu mais choros debaixo daqueles papelões.



Dia Simples
March 28, 2008, 3:46 pm
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Quando eu o vejo recostado no sofá, seus movimentos docemente calculados parecem me chamar ao encontro do seu corpo.
Detalhes quebrados trazem-me traços de um prazer profundo de estar em sua companhia, de ouvir sua voz.
Reparo na bermida jeans de cós dobrado que deixa a mostra um espaço limitado de um elástico
Ele não percebe meu olhar e eu fico pensando como ele agiria se soubesse que eu saboreio cada ato dele com imensa satisfação.
As mãos inquietas não sabem onde repousar, então as deixo livres.
O mundo é só o mundo, e nada mais
E eu me afundo com o universo em extase.
Já não escuto.
Talves, nada mais que um simples dia.



O triste fim da tristeza
March 28, 2008, 3:36 pm
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Esperei durante muito tempo
Essa ferida parar de vazar
E agora que a dor cessou
Eu me sinto tão abandonada
Como vasos sem nenhuma flor

O futuro parou de crescer
Lá fora a chuva perene já não cai
Os passaros cantam
E a sensação de dor curada
Vem e vai

De mim para mim
Diretamente transferido
Enquanto tomo uma xícara
De chá recém-aquecido
As linhas da vida têm lacunas

Água morna molha meus joelhos
Os banhos já não são tão deprimentes
Na frente do espelho, rosto sem lagrimas
Algodão para passar adstringente

A vida ficou comum
Como sujeira de pia
E eu aqui pensando besteira
Quando a mente devia estar vazia



Era
March 28, 2008, 3:21 pm
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‘Era’ é um termo interessante. pode tanto indicar algo que deixou de existir como algo que passou a existir.
Existimos e podemos do mesmo modo deixar de existir.
O cansaço proveniente dos anos nos atinge muito cedo,
Mas enquanto o ‘era’ existir, todos nós seremos eternos.
O excesso de apego as coisas do mundo é fator determinante para destruir o ‘era’ glorioso.
E a religião.
Religião é como dinheiro.
Depois que morremos vamos todos para o mesmo tipo de vala, não interessa se somos muçulmanos ou judeus, se somos ricos ou mendigos.
Religião e dinheiro são duas coisas mundanas muito valorizadas pelo homem.
O homem acha que sua alma sera salva pela religião e seu corpo pelo dinheiro (ou vice-versa).
Humanos são idiotas.
Realmente urinamos e defecamos sobre um passado construido com muito suor, com muito sangue.
Histórias não são simplesmente fatos passados, mas são fragmentos de futuro, e quando bem empregados, dão frutos fortes e constroem com seu futuro o passado que também servirá como fruto para outros futuros.
A preguiça me impede de terminar resto do pensamento.



Insomnia
March 28, 2008, 3:07 pm
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São duas e vinte dois da manhã
De um domingo que passará
Meus olhos não se fecham
Minha mente não descansará

Segunda-feira, mesma rotina
Descansa o corpo, a alma perece
E num descanso mal descansado
Terça-feira até me entristece

Na quarta-feira o tempo ajuda
A por um fim nesse sofrimento
O dia quente, a carne podre
Andando ébria no calçamento

Na quinta-feira já não me aguento
Olho no espelho e não sou eu
Mas me apoio no pensamento
De que a semana já aconteceu

E sexta-feira, que agonia
Não passam as horas, parece carma
Se na rotina raiar um sol
Perambulando corpo sem alma

Sábado chega simples assim
Parece até que não foi real
E quando enfim o descanso vem
Começa então outro carnaval



Solfieri
March 28, 2008, 2:41 pm
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“Inspirado no conto Solfieri
de Álvares de Azevedo, Noite na Taverna”
Se para os campos verdejantes
Meus olhos abri a algo sem vida
E a supremacia do amor que me toma conta
Levou o ultimo pedaço de mim além

Grandes momentos e um só desejo
Do coração parado, da boca ressequida
Dos estatuários e lapides
Revives, ó anjo coberto de névoa

O corpo imóvel e o grito abafado
Recolho a figura mórbida
Minha esposa e sua mortalha
Suas mãos tão frias quanto minh’alma

Pequena parte de mim enterrada em seu ser
Somos somente um
Eu e tu que já não vives
Ou talves, desperte ofegante

Meus lençóis embrulham um cadáver
Uma pessoa sem alma, mas bela
Meu vazio, meu sonho impuro
Meu desejo de luxuria cruel à meia-luz

Morres embebida em febre
Pela segunda vez vai às trevas
Seu riso convulso afogado em delirio
Durma na doce calmaria de meu leito

Eu profanei meu lar
Eu profanei seu corpo
E fiz de tu minha mulher esculpida
Serei eternamente condenado

A bela jovem dormiu
E o mancebo moribundo que fui, sou
Carrega suas flores tão ressequidas
Quanto o crânio da que enfim descansa

thuanyserpa ~ copyrighted©


O homem que assistia
March 28, 2008, 2:19 pm
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Nasceu e assistiu o médico dar-lhe palmadas, não chorou, estava muito entretido naquela cena para prestar atenção em dor.
Cresceu e assistia seu pai e sua mãe a brigarem, sempre esperando o próximo capítulo.
Foi pra escola e assistia atentamente as brigas dos maiores e mais fortes com os menores e mais fracos, até com ele mesmo, não reagia, queria saber o que aconteceria no final.
Foi adolescente, aí criaram um aparelho que transmitia tudo o que se passava ao redor do mundo, não saia da frente dele, era muito interessante usar suas menções no dia-dia.
Guiava-se por aquele aparelho: “Nova tendência de Milão: calça verde com blusa cor de abóbora”, não tinha discussão, jogava todas suas roupas fora e comprava as que se dizia ser certa.
“Devemos cultuar Santa Alice dos Carecas de Suspensórios Listrados”, e assim virou devoto, comprando com suas miseras economias as estatuas, santo -sudários, relógio com o emblema da santa, até o carro que tinha misteriosamente aparecido no retrovisor o fio de cabelo que diziam ser da santa.
O homem, então, enlouqueceu. Perdeu sua mãe, e assistiu seus irmãos chorarem as beiradas do caixão. Perdeu sua namorada e assistiu sua mobília ir embora junto com ela, sobrando somente a santa, suas calças verdes, suas blusas cor de abóbora e o aparelho.
Assistia tudo tão atentamente, entrou na cadeira de tal forma que seu corpo já não se distinguia dela.
Seus olhos afundavam pra dentro da cara opaca por falta de banho de sol, sua cabeça não mais pensava, sabia somente das programações, não lia há décadas, não trabalhava a milênios e as contas da casa se acumulando.
De repente o aparelho desligou-se sozinho. Não havia mais homem, não havia mais luz, não havia mais gente, não havia mais nada.
A programação terminou.



Outono
March 18, 2008, 4:48 am
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A chuva descia lentamente pelo seu cabelo enquanto ela corria.
Corria e corria, para alcançar o nada entre as estrelas.
A noite, amarelada pelos faróis dos carros, iluminava as pessoas que passavam por ela e se perguntavam o que exigia tanta urgência.
Chegando a beira da ponte, retirou suas sandálias e se prostrou no parapeito, dando, em seguida, um mergulho glorioso no trânsito da avenida logo abaixo.
Ela fundiu-se ao asfalto, seus gases juntaram-se aos vapores da noite e a fumaça dos carros e por alguns minutos ela nadou no rio de cascalhos, sentiu o cardume de autos a observar o que restava do seu corpo, para depois seu espírito desaparecer nas figuras pixadas no muro.



O Primeiro
March 11, 2008, 12:48 am
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Suspensos nesse pilar de futilidade estamos
Sofrendo a cada passo em falso
Dizendo palavras de ternura em vão
Causando repulsa e desespero
Mundo fácil de fáceis faces
Mundo grande de múltiplas escolhas
Estamos presos em uma redoma de cristal
Estamos ébrios de tanta ignorância
Estamos correndo contra navalhas
Caímos em um passado pecaminoso e sujo
Não queremos sair dele
Saboreamos cada sentimento pútrido da alma
Choramos, então, lagrimas de fel
Para enfim morrermos afogados em sangue inocente
Em hora, somos carne
Em hora, somos palavras
Suspenso nesse pilar de futilidade estamos
Pularemos ou não
Continuaremos aceitando os podres odores da sociedade?
Ignorando o fato de que existimos para o mundo.
Fazendo-nos acreditar que a vida não é nada mais
Um momento, um abraço, uma lagrima, um sorriso
A coação é momentânea ou genética?
Podemos nos libertar dos fios do poder e nos colocarmos em pé novamente
Para que chorar, o choro é psicológico
A psicologia não existe.
Não somos nada
Você ainda não entendeu?