Filed under: Poemas
A invasão do cheiro forte da casa se espalha lentamente no seu mundo
E cava o buraco a sete palmos do seu peito
As suas mãos mortas vão apertando a vida
Seus passos barrentos espalham sujeira no chão limpo
Ouve um grito daqueles que não existe mais
E um elogio daqueles cheirando a inverdade
Você ri com o canto da boca prevendo o final da história
Eu me contento a ver você mudar seu corpo
E na transmutação eterna de almas, de vidas
Tudo montado acima da areia mole e desabando
Eu gosto da bandeira no topo do seu castelo
É de vermelho vibrante, cor de sol-poente
Por que você não grita teu nome alto?
Para ver se assusta os pássaros que comem o topo da sua cabeça
Ou pelo menos afirmar que você ainda se pertence
E sente algo a mais pela terra que ainda vaza entre seus dedos
Expulsa de ti esse grito, aproveita e cospe teus dentes
Aproveita e mastiga tua lingua maldita, e bebe teu sangue
E se digira por dentro, espume seu ácido, se derreta e suma
No meio de tando desgosto, talves teu veneno te caia bem
Estou passando por um momento delicado – disse ela com a mão pousada sobre o rosto molhado de sei-lá-o-que – Eu não quero que aconteça sempre do mesmo jeito, foi muito traumático a última vez. Acho que o problema esta comigo.
Ele, não podendo se conter vociferou alguns palavrões e bateu a porta do quarto. Disse que não mais voltaria.
Ela levantou-se da cama impaciente e andou durante dois ou três minutos em círculos Saiu do quarto e ficou na varando olhando para o andar de baixo. Vez ou outra fitava a calçada, que estava 21 andares pra baixo.
Não se preocupando muito com o tempo, estava somente com um roupão fino que voava quando o vento atravessava as grades do alambrado que a mantinha segura na sacada. Pensava em nada, depois começou a observar as árvores ao redor da rua, que ia se esticando até a esquina.
Ele voltou.
Abriu a porta de vidro da sacada, deu um beijo úmido em seu pescoço nu e gélido e entrou. Lá dentro ela escutou ele dizer algo sobre BANHO-VEM-CALMO-AMANHÃ-COMVERSAMOS.
Ela então, entrou, sentou-se no sofá azul-marinho e ficou fitando o móvel da TV que não tinha TV.
Engraçado ter pensado nisso, a essa hora noturna, depois de brigar com seu parceiro. Ah, mas sua mãe veio em sua memória, com seu nariz sangrando, como era de costume nas brigas com seu pai, dizendo a ela que cresse em Deus, que ele proveu seu caminho até hoje e proveria o resto todo se ela cresse.
Gostava de pensar em sua mãe. Mulher forte aquela. Ficou velha cedo demais, muitos filhos pra cuidar, um marido inválido, podre, infeliz, imortal. Ela sempre esteve presente, até quando simplesmente não esteve mais.
Ela lembrava-se de seu enterro e de sua roupa branquíssima como se fosse casar.
- Coisas da vida – repetia pra si mesma.
A mãe dela tinha feito dela forte como ela era hoje. Não foi Deus, nunca tinha sido. Se ela acreditasse em uma divindade na terra, bem, seria sua mãe.
Já estava cansada e deixava seu corpo repousar apoiado no grande braço azul do sofá.
Como se esgueirando na escuridão da sala, ele veio e encaixou na lateral do seu corpo desprotegido e ficou ali, a acariciar seu rosto.
- Devíamos brigar menos – disse ele com voz amena, doce, quase sonolenta.
Ele deixou seu lábio pousar de leve no colo dela, deu-lhe um beijo na altura do coração. Acariciava sua perna com a ponta dos dedos enquanto ela só respirava.
Ficaram os dois ali, deitados, um complementando o outro. O concavo e o convexo, se esquentando um no corpo do outro. Era bom ficar perto dele. Era bom sentir ele por ali.
Os dedos, a respiração, as respostas. A voz dele ecoando na casa meio-vazia.
O silêncio era irremovível Até quando se rompe por si só.
Um beijo estalado nos lábios dele. E a mão passeia pelo seu corpo liso, esguio, limpo, cheirando a sabonete. Ele, pequeno, envolve o corpo dela inteiro e coloca a cabeça confortavelmente em cima do seu esterno. Ela por sua vez, envolve a mesma com um abraço apertado.
Dormem a noite toda assim. Ele ouvindo seu coração bater baixinho e sussurrando palavras de amor. Ela deixando as lagrimas de felicidade escorrerem pela face.
No passear, os passeios, tu passeias
Bailando entre os rígidos, mortos escombros
Os sonhos construídos a muito ruiam já sob a terra dura
A pena de ter pena, a dura carne presa
Que se libera
Mas um pedaço de você ainda pulsa em mim
A lembrança de um pedaço sólido
Que escorre, e escorre
Entre seus dedos, que distantes dizem “boa noite, princesa”
E a desgraça é iminente.
Nos olhos vazios da saudade, tentamos nos preencher
O destino cruel da lacuna que vaza
Que explora o maior dos canais
E expulsa de mim, você.
Água e pus minam dessas manchas da pele
E cada vez mais seus passos vão indo, indo
Se perdem dos meus
E eu não o vejo mais
Mas um pedaço de você ainda pulsa em mim
A lembrança de um pedaço sólido
Que escorre, e escorre
Entre seus dedos, que distantes dizem “boa noite, princesa”.
ah, transpasso através dos seus laços
Seus cabelos, Hideki, que ando, embaraço cada fio
E respiro na nuca, e respiras na minha
E amamos sozinhos no alucinógeno cheiro de êxtase
Em transe, nas tranças, nos lençóis
Seu corpo pequeno, quente, suado
Suas mãos procuram na noite, minha pele branca reluzente
No quarto escuro, duas almas alaranjadas bailam
Perdidas no sonho dos seus dias de ternura
Chegaste, de fato, de repente
E deitou em minha cama, e fez minha cabeça
E me levou para seus sonhos, completou os meus
Dos seus olhos, o brilho dos meus
Da sua boca, o sabor da minha
Do seu sorriso, minha felicidade
Do seu corpo, minha satisfação
E te desejo, cada dia mais e mais
Dormir e acordar do seu lado
Sua mulher, sua esposa, sua amante, sua menina
Molda-me aos moldes do seu corpo para que encaixemos feito peças
Um quebra-cabeça concreto, pedaços de corações quebrados formando nosso desenho
Me chame de SUA, que sou
E vivamos intensamente cada gota de paixão
Descubramos nossas faces e cada vez mais, um pulsando como o outro
Nos juntemos até o limiar da loucura, para o fim.
Eu despedaço
Andando pelos caminhos tortuosos de qualquer buraco dentro das órbitas dos seus olhos
O chão arde, ou meus pés ardem
Eu nado em um mar de cal diluído em lágrimas, que endurecem, endurecem
Molha o piso frio, escorre branco-quente
É leite, ou algo mais dentro daquela jarra.
As mães que afagam suas crianças, que degolam suas crianças, que afogam suas crianças
Põe a roupa pra secar la fora, a carne seca da orelha esquerda,
Ah, é só uma carne morta, não se preocupe, ela não morde mais
É comida, comida pra quem tem fome
Mas a fome pode não ser de comida
Pode não ser de bebida
E continua a escorrer, entre meus dedos
E vai escurecendo, escurecendo… até empretecer os móveis do quarto, as paredes como um bolor negro e fétido.
Eu não queria estar aqui, e ver ele tocar as mesmas partes que eu tocava, e ver ele falar as mesmas coisas que eu falava, e ocupar Um lugar que era meu, dentro da órbita dos seus olhos e dos buracos do seu corpo.
A alma negra de uma noite sem estrelas passa por entre tudo o que ainda tem cor, e transforma em inanimado tudo que dança em meio ao que já foi vivo.
Eu despedaço flores
Despedaço vidros
Despedaço pedaços de mim
Que se perdem nas fendas do chão que se abre e engole a terra.
Inda que todos os santos que circundam o convexo do meu mundo
Me tentassem impedir, é impossível não querer roubar um pedaço desse anjo
Morder sua boca, e puxar seus cabelos.
Num suspiro sussurado, dizer bestialidades de amor
Sentir a mão trêmula segurar a carne fria da cintura
E cuidar para que o desnudo não apareça através dos lençóis
Quanto tempo demorei para olhar no espelho e enchergar o que deveria ver?
Perdida, as areias voam no tempo, para o passado
Dando lugar a limpeza de um futuro azul-claro-arroseado
Eu sinto a ausência, todo o dia
E um aperto forte no peito como se o coração pulsasse preso em cordas
A garganta querendo gritar, os olhos querendo chorar
Escorre paixão,
Nas paredes da alma compadecida
E a distancia merecida serve para fazer crescer
O sentimento que, exteriorizado, não cabe no mundo
Sendo impossível, em uma vida, ser expressado por completo.
O anjo chega misterioso e me toma nos braços.
O cheiro dos nossos corpos pulsando no espaço.
Mordendo-se, impossível não dizer bestialidades.
Sentir a carne trêmula, e as mãos frias passeando, fixando.
Cuidar para que o desnudo seja completo,
Para que a indagação vaze através do espelho e o escuro não nos deixe ver
E as areias são só o pó, do morto que se perde no passado
Então o futuro explode as caras
A presença toma lugar na alma e invade
Num suspiro sussurado de pedidos de prazer.
A garganta querendo fechar, os olhos querendo saltar
Escorre paixão,
Nas pernas quentes da acolhedora natureza
E a distacia fica tão pequena que por um momento são um só.
Um sentimento, que exteriorizado, toma conta do mundo.
Sendo impossível, em uma vida, dissipar-se através do vento do tempo.
Os completos arcos de bondade se formam sob a redoma de vidro que carregamos dentro do peito.
O carinho brota como uma erva daninha dando flores roxas e enfeitando com seus caules esverdeados.
Por baixo, a sombra toxica passeia matando todo e qualquer ser vivente.
Por cima, no seu azul, brilha o mais lindo sol em decadas.
Ah como é dura a realidade rebelde da vida
Caminhos que não se cruzam como deveriam se cruzar
Ah como é triste caminhar só, entre os labirintos de espinhos
Sabendo que se curvar é morrer, sabendo que morrer é saber
É sempre a mesma história, um dia que nega outro
Uma escuridão perene, inóspita que migra de alma em alma
Acostume-se com a solidão, pois ela te cai muito bem.
Acordei em um sonho sufocado, colocando a mão no peito. O suor escorria frio na minha testa, levantei-me.
Tomei um banho morno, era preciso. O banheiro estava imundo, cheio de terra e restos de cabelo. No canto viam-se marcas de pés que se arrastaram. O cheiro forte de sangue empesteava o ambiente. Na pia tinha um pano imprestável, que tinha sido outrora uma camiseta.
Terminei minha ducha, sentei-me na beirada da cama ainda nua, dormente, nebulosa. Amanhã eu teria que pagar algumas contas pendentes, e levar o cachorro para o veterinário. Liguei a TV na esperança de que o sono voltasse. Nada passava, só aquela chiadeira imprestável, maldita antena.
Desliguei e resolvi limpar o banheiro. Vesti minha camisola, fui ate a lavanderia e constatei que o corredor e a cozinha também precisavam de uma faxina. Peguei meu esfregão, alguns panos brancos e uma toalha absorvente. No caminho sorri comigo mesma.
Oras, era em torno de três da madrugada e eu me encontrava cheirando água sanitária. Eu achei aquilo a experiência mais gratificante da minha vida.
Enquanto eu limpava seus cabelos do chão, eu lembrava o quão prazeroso tinha sido esmagar seus miolos batendo a porra da sua cabeça naquele sanitário, o quão prazeroso era olha seus olhos fugindo das órbitas e seu sangue espirrando nos meus azulejos brancos. Seus dentes sendo vomitados da sua boca. É, de fato, até seu corpo se espulsara de você. E quando eu vi sua vida se esvaindo dos seus olhos, me senti completa… Exatamente como no dia que te conheci.
Depois te arrastei cuidadosamente, deixando que seus restos mortais carimbassem todo o chão por onde você pisou, limpassem e purificassem suas pegadas imundas da minha casa, da minha vida. Deixei que seu sangue se espalhasse entre os vãos do meu piso e que seus cabelos ficassem por todo o corredor. Coloquei você do lado de fora para que tomasse o sereno que sempre gostou tanto e quando eu vi que as malditas larvas estavam clamando por seu corpo podre no jardim, cavei. Com as mãos nuas na terra o buraco mais fundo que uma alma humana podia cavar. Joguei seu pedaço de carne dentro daquela vala como quem abre uma lata de atum e joga o conteúdo em uma panela, esperando que tomasse a forma da mesma. Eu queria ouvir seus ossos quebrando.
Peguei algumas ferramentas de jardim, e dilacerei o resto do seu rosto com força até desfigurar o que um dia eu tinha achado que fosse belo, senti várias coisas se partindo. Ah, de certa forma, eu te achava mais belo assim, pela metade, transfigurado, amorfo, arroxeado, inchado, imóvel, com essa expressão congelada catatônica. Uma obra de arte de fato. Uma sensação orgástica tomou-me por completo como se eu tivesse sendo possuída por um monstro.
Depois de admirar o resto de você eu te enterrei. Te enterrei tão fundo, no meu jardim, na minha alma, na minha vida, que ninguém por mais que te procure, vai achar sequer um vestígio de você por mim.
E o silencio, calado envolve
Um nãoseioque cheio de vaivéns
A bruma pesada, cheiro de fumaça azulada
Tóxico, toxicológico, orgânico. Entre os dedos
Entre uma alma e outra e
O ralo do banheiro, o cabelo da cabeça
A cabeça no ralo, o sangue escorre no corredor
As onomatopéias da dor, a tristeza do corpo
A alma tóxica, inalando fumaça de sangue
Um nãoseioque cheio de silêncios
Calado. Entre o ralo do banheiro e o corredor
Escorre o sangue azul nas paredes, orgânico.
Da cabeça, entre uma alma e outra.
Entre uma alma e outra
Uma alma e outra.
Um nãoseioque cheio de ralos com cabelos
A bruma escorre, inalando silêncios.
Entre os dedos
Entre uma alma e outra
Entre os dedos.
Insano
E vem, bailando como em uma dança sedutora
Como vento de outono, pensa devagar, eu escuto
Ele tras consigo flores, ele tras consigo paz
Me carrega, do lado de fora da caixa de madeira
Segurando na alça de prata da minha dor
Através dos lençóis de setim que cobrem meu rosto
Eu sinto sua alma acariciando a minha
Eu sinto sua respiração ofegante pós-choro convulso
Uma onda de fúria envolve meu peito, como podem.
E o perto se torna longe, e eu sinto a terra descer
Eu quero estar onde estou, esperando a vociferação impulsiva
Clamando meu nome nas montanhas dantescas
Como em um sonho perverso, envolta na possessão
Estou acordada, sentindo sua mão no meu ventre nu
Esperando que a cor quente do seu corpo aqueça meu coração
Frio, como é frio nesse lado do mundo onde estou.

